3 de maio de 2011

Porque Jesus multiplicou duas vezes os pães?

Um milagre repetido
Não é comum que os Evangelhos contem milagres "repetidos" de Jesus. Ao contrário, preferem narrar feitos mais diversos do Mestre, para mostrar o seu amplo poder.
Porém, existe um milagre estranhamente repetido no Evangelho de Marcos: a multiplicação dos pães. Por duas vezes o milagre é narrado e, praticamente, com os mesmos detalhes.
Acompanhemos as semelhanças...
- Jesus estava à beira do lago da Galileia
- reuniu-se uma grande multidão ao seu redor
- depois de um tempo, a multidão sentiu fome
- Jesus perguntou aos discípulos onde buscar comida
- os discípulos responderam ser impossível conseguir tão prontamente
- alguém da multidão ofereceu pães e peixes
- Jesus pediu ao povo que sentasse, tomou o pão em suas mãos, deu graças e repartiu à multidão
- todos comeram até saciar-se
- sobraram cestos de pães ao final
(cf. Marcos 6,34-44 e 8,1-9)

Mateus também conta as duas multiplicações. Já Lucas e João preferiram contar apenas uma, a primeira.

Perguntemos: Jesus realmente multiplicou duas vezes os pães? Por quê? O que mais pretendem os Evangelhos nos ensinar com este milagre?


A amnésia dos discípulos

Fazendo uma leitura coerente e atenta dos Evangelhos, podemos concluir que Jesus realizou "apenas" uma multiplicação, e não duas como contam Marcos e Mateus. Isso conclui-se observando as semelhanças no conteúdo, forma e detalhes, que por momentos resultam praticamente em uma história "idêntica".
Seria uma casualidade incrível se, durante seu breve tempo de vida pública, se produzisse circunstâncias tão semelhantes e com os mesmos protagonistas. Existe uma outra razão que leva
a concluir-se que não houve repetição do milagre.
Na narração da segunda multiplicação dos pães, quando Jesus chama seus discípulos a darem de comer ao povo, eles replicam: "Como conseguir pão para saciar tanta gente, aqui, no deserto?" Se os discípulos já haviam presenciado a primeira multiplicação, como poderiam ainda fazer esta pergunta? Acaso não recordariam de algo tão surpreendente? Esta pergunta sem sentido demonstra que a segunda multiplicação dos pães foi "escrita" sem saber-se da realização da primeira.
Portanto, num ponto de vista histórico, podemos concluir que houve, realmente, apenas uma multiplicação que, posteriormente, a comunidade cristã desdobrou em duas versões, como se fossem dois fatos distintos.
Por que um único acontecimento teria sido duplicado?



O valor da multiplicação dos pães

A resposta para este "enigma" se encontra, justamente, na grande importância que este milagre representa desde os primeiros tempos da Igreja. As comunidades cristãs começaram a considerar o milagre como o mais significativo de todos os milagres, especialmente por ser o único milagre narrado duas vezes e o único contado por todos os evangelistas. Esta importância não se deve ao feito em si (sabemos que haviam outros milagres muito mais impressionantes, como a ressurreição de Lázaro), mas justamente por anunciar algo que traz em si toda a essência cristã: a Eucaristia.

Os primeiros cristãos prontamente enxergaram que a multiplicação dos pães era um anúncio da Eucaristia que Jesus celebraria ao final de sua vida, na última ceia. Ao repartir o pão no deserto, Jesus chamava a toda a humanidade para olhar à outra mesa, a mesa da Eucaristia, onde Ele próprio entregaria outro pão: seu próprio corpo, seu ser. Jesus pede, depois, que não desejemos apenas o pão material, mas que busquemos outro pão, que nos garante a vida eterna (cf. João 6,52-58).

Segundo estudos, Jesus realizou o milagre na margem ocidental do lago da Galileia, ou seja, território dos judeus e, para os discípulos, eram os judeus os destinatários do anúncio do Messias (cf. Marcos 6,32). O que parecia é que o convite de participar da Eucaristia era dirigido apenas aos judeus, e não para outros povos.


O povo da outra margem

Quando os primeiros cristãos, logo após a morte de Jesus, começaram a anunciar o Evangelho aos pagãos, os não-judeus, logo sentiram a necessidade de deixar claro que também os não-judeus eram chamados a participar da Eucaristia e receber o corpo de Jesus: Jesus não veio para salvar apenas judeus, mas toda a humanidade. A forma que encontraram de assim anunciar foi escrevendo a narrativa de um relato paralelo da multiplicação dos pães, muito parecido com o primeiro, mas, ao invés de encontrarem-se na margem ocidental do lago, agora encontram-se na beira oriental (cf. Marcos 7,31), uma vez que o lado oriental não pertencer aos judeus, mas aos pagãos. Deste modo, Jesus aparece multiplicando os pães também aos "estrangeiros", chamando-os, também, para a Eucaristia.


Assim se explica porque existem dois relatos da multiplicação dos pães. Assim se entende, também, porque quando comparados os relatos apresentam detalhes diferentes.

Se agora compararmos os dois relatos sob esta perspectiva, podemos entender melhor o sentido das divergências que existem entre eles.


Cada povo "'com seu pão"

1. A primeira multiplicação, dirigida aos judeus, aconteceu com cinco pães (cf. Marcos 6,38). Para os judeus, o 5 é um número muito forte simbolicamente, pois representa o Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, que contém a Lei de Moisés e eram o "alimento da alma judaica". Jesus, com5 pães, diz que Ele é o novo alimento que renova a antiga aliança.
A segunda multiplicação dirige-se aos pagãos e acontece com sete pães (cf. Marcos 8,5). Segundo a crença popular, existiam no mundo 70 nações pagãs, sua lista, inclusive, aparece na Bíblia (ver Gênesis 10). Por isso, é 7 o número de pães mas adequado para representar.

2. Na primeira multiplicação, eram 5.000 homens (cf. Marcos 6, 44). Como vimos, o 5 é sagrado para os judeus.
Na segunda multiplicação, eram 4.000 homens (Marcos 8,9). Quatro representa os quatro pontos cardinais da terra, ou seja, a multidão de toda a terra.

3. Na primeira multiplicação sobraram 12 cestos (cf. Marcos 6,43). O número doze lembra as doze tribos de Israel.
Na segunda multiplicação, sobram 7 cestas (cf. Mc 8,8), pois sete fazia alusão às setenta nações.

4. O primeiro relato diz que as pessoas vinham de cidades vizinhas (cf. Marcos 6, 33), lembrando o povo judeu que cercava Jesus.
Já a segunda narrativa diz que havia gente vinda de longe (cf. Marcos 8,3), representando as nações pagãs, afastadas dos judeus.

5. A primeira relata que as pessoas esperaram um dia apenas para a multiplicação (cf. Marcos 6,35), indicando a prontidão com que o povo judeu se beneficiou da Eucaristia,
No segundo relato, as pessoas esperaram três dias sem comer (cf. Marcos 8,2), referindo-se ao terceiro dia da ressurreição, fato que abriu o anúncio do Evangelho a todos os povos, incluindo os pagãos.

6. No primeiro relato, as pessoas se reuniram em grupos de 50 e de 100 pessoas para comer (cf. Marcos 6,40), porque o povo de Israel, durante a caminhada pelo deserto com Moisés, estava organizado em grupos de 100 e 50 (cf. Êxodo 18,25 e Deuteronômio 1,15).
Na segunda multiplicação, as pessoas se organizaram espontaneamente para comer, mostrando a liberdade perante as estruturas judaicas.

7. No primeiro milagre, os discípulos têm a iniciativa e se aflingem com a fome daquela gente (cf. Marcos 6,35-36), mostrando a preocupação dos primeiros cristãos em transmitir o Evangelho aos judeus.
No segundo, as pessoas esperam três dias sem comer e os apóstolos não reagem, até Jesus advertir sobre a fome do povo (cf. Marcos 8,1-3)..

8. Na primeira multiplicação, Jesus sente compaixão pela multidão "porque eram como ovelhas sem pastor" (Marcos 6,34). Cita-se, assim, uma profecia de Ezequiel (34,5-6), que anuncia que Deus vai ocupar-se da fome de seu povo (cf. Ezequiel 34,13).
Diferentemente, no segundo relato Jesus sente compaixão "porque estão três dias sem comer" (cf. Marcos 8,2). Indica-se, assim, que também os pagãos são amados por Deus, por isso também se percebe a sua fome.

9. No primeiro relato, a multidão senta-se "na relva verda" (Marcos 6,39). É uma alusão direta ao Salmo 22(23), muito conhecido dos judeus.
Na segunda multiplicação, as pessoas sentam-se "sobre a terra" (Marcos 8,6), simbolizando a universalidade, a totalidade do mundo, de onde vêm os pagãos.

10. Na partilha dos pães com os judeus, as sobras enchem doze "cestos" (Marcos 6,43). A palavra grega usada no texto original para cesto é "kófinos", que indica um recipiente pequeno, feito com cana e vime, comumente usado pelos judeus.
Na partilha com os pagãos, as sobras enchem sete cestas (Marcos 8,8). Aqui, o termo grego usado é "spyrís", referindo-se a cestas grandes de corda, usados pelos pagãos para suas atividades. O tamanho grande das cestas as diferenciam das primeiras, indicando a multidão dos povos pagãos convidados para a Eucaristia.

11. No primeiro milagre, Jesus tomou os pães e "pronunciou a bênção" (cf. Marcos 6,41). No segundo, Jesus tomou os pães e "deus graças" (Marcos 8,6). As duas expressões significam a mesma coisa, refletindo o ato de agradecer a Deus pelos alimentos antes de comê-los. Mas "pronunciar a bênção" (euloguéin, em grego) é a expressão típica que usavam os judeus em família, e "dar graças" (eujaristéin, em grego) é a fórmula usada nos ambientes gregos (pagãos), sendo mais correta entre eles. Jesus sabia disso. Os discípulos também.

Em síntese, Jesus realizou apenas uma vez a multiplicação dos pães, às margens do lago da Galileia, uma tarde depois de partilhar a jornada com os judeus desde as regiões vizinhas. Com o passar do tempo, quando os cristãos tomaram consciência de que, realmente, Jesus era o Messias esperado, aquele milagre adquiriu uma enorme importância, pois converteu-se em uma antecipação da Eucaristia, passando a ser anúncio da "comida de salvação".

Quando, pouco a pouco, o Evangelho começou a ser anunciado entre os pagãos, sentiu-se a necessidade de chamá-los, também, para a Eucaristia. Surge, assim, a tradição de um segundo enfoque da multiplicação dos pães, agora em território pagão e a eles destinado.

Jesus, pouco depois da "segunda multiplicação", viajou de barco ao território pagão para evangelizar, notou a insegurança dos discípulos em evangelizar aos estrangeiros, disse: "Ainda não entendeis? Vosso coração continua incapaz de compreender? Não lembrais quando reparti os 5 pães entre 5.000 homens (...) e doze cestos sobraram? E quando reparti 7 pães entre 4.000 homens (...) sete cestas sobraram? Mesmo assim não entendeis?" (cf. Marcos 8,14-21).
Este diálogo de Jesus com seus discípulos mostra a importância que têm os números simbólicos da multiplicação dos pães. Significam que judeus e pagãos eram chamados para a Eucaristia, unidos sob o amor de Deus, partilhando o mesmo pão.


Imaginar uma nova ceia

Como é bonito ver a sensibilidade dos primeiros cristãos que, ante a preocupação de que os pagãos se sentissem excluídos, deixaram expressamente claro que Jesus era mestre de todos e havia vindo para todos.

Nós, cristãos modernos, não temos essa sensibilidade. Muitos consideram a comunhão dominical um prêmio exclusivo para alguns, um reconhecimento aos que são bons, uma recompensa pela santidade pessoal, uma homenagem por obras. A comunhão, porém, é o alimento dos mais fracos, dos mais famintos. Ao invés de criticar a quem vai comungar, precisamos celebrar junto de todos o amor feito alimento na Eucaristia e para todos, especialmente os que afastaram-se do Cristo e precisam retornar.

Podemos concluir que o fato da segunda multiplicação não tenha existido,mas que reflete perfeitamente a vontade de Jesus: que ninguém fique longe de seu pão, de seu amor, de sua amizade.

Hoje, segue sendo um sonho de nossa Igreja: que irmãos e irmãs confusos, sem rumo, aleijados, desorientados, sem esperança, voltem à comunidade cristã e sintam-se acolhidos, verdadeiramente, para que Jesus possam partilhar de seu pão. Um pão que nós, a Igreja, podemos estar demorando demais em permitir chegar a todos....


por Giorgio Sinestri scj e Ariel Valdés

11 comentários:

Anônimo disse...

excelente artigo, muito exclarecedor. Parabéns.

Anônimo disse...

amigo- em Mateus 16.9 e 10 o proprio Jesus faz mencao dos DOIS milagres da multiplicacao- portanto nao foram repeticoes de dados - mas dois milagres distintos - Obrigada

Anônimo disse...

Gostei muito do artigo.
Se de fato Jesus quis mostrar com a multiplicação dos pães em dois momentos diferentes para dizer que seu corpo deve ser para todos, como vcs colocou no final do seu artigo,porque a Igreja ainda condena, ou, nega a eucaristia para pessoas de segunda união?
Mesmo ouvindo as explicações ja exposta por algumas pessoas importantes dentro da Igreja, acho que negar o corpo de Cristo a essas pessoas e ir contra o próprio Cristo pegrou.O pão deve ser repartido para todos.

Marcelo Pinto disse...

O que comprova que seu argumento é inválido é a sua própria frase que diz: "Esta pergunta sem sentido demonstra que a segunda multiplicação dos pães foi "escrita" sem saber-se da realização da primeira."
Pois a bíblia foi escrita por homens sobre a inspiração do Espírito Santo de Deus. E Ele não se esquece de nada.
Além do que, na própria Palavra temos outro exemplo da ação de Deus (vulgo milagre) acontecendo duas vezes, que é a separação das águas, a primeira com Moisés (Êxodo 14) e a segunda com Josué (cap .3).
Portanto, vamos continuar procurando aprender de Deus a lição que há em Ele nos contar sobre duas de suas ações parecidas.

Anônimo disse...

Amigo, os milagres são repetidos. Isso nós observamos em Marcos 8. 19, 20 o próprio Jesus, fazendo menção das 2 multiplicação.
Fica na paz

Anônimo disse...

Amigo, não tem o que fazer, vai procurar um emprego.
Para de ficar inventando idiotices.
Quer ser teólogo doutrinador?
Tá inventando moda?

Mario Luiz Vona disse...

Este comentário embora rico em detalhe,e quase convincente, perde a credibilidade quando o autor tenta sugerir que não houve duas multiplicações de pães, observe o relato que Marcos escreve do próprio Jesus no capítulo 8:18;21 ele faz os discípulos lembrarem das duas multiplicações " Quando os cinco pães entre os cinco mil, quantos cestos cheios de pedaços levantastes?"E eles disseram-lhe:DOZE Marcos 6:43, e depois Ele fez nova pergunta referindo-se a segunda multiplicação, "E,quando parti os sete entre os quatro mil,quantos cestos cheios de pedaços levantastes?" e eles disseram-lhe: "SETE"referindo-se a segunda multiplicação Marcos 8:8. logo houve duas multiplicação de pães e peixes.

Anônimo disse...

O comentarista elevou-se os homens e disse que eles não poderiam ter esquecido da 1ª multiplicação, mas equivocou-se pois nós humanos sempre nos esquecemos do que Deus faz por nós. Um comentário muito rico em detalhes mas totalmente anti-bíblico.

Bruno Mota disse...

Boa tarde e a paz do Senhor.

Apenas uma informação: a segunda multiplicação (07 cestos). Foi aonde sobrou mais peixes, pois foi o mesmo cesto utilizado na descida de Paulo quando o mesmo fugiu.

Anônimo disse...

Amigo, esse caso é o típico caso do texto " Sanfona " . Estica e puxa de acordo com a necessidade, assim, o texto fala aquilo que voce quer. Dessa forma, se coloca ate elefante em caixa de fósforo, ou seja, vale qualquer coisa pra justificar o que se acha. Se não fossem as EVIDENCIAS , ( textos adicionais que as pessoas deixaram ali acima nos comentários como " Mateus 16.9 " , o seu brilhante texto seria apenas mais um veneneno no mar de confusão criado pelas milhares de interpretações de pessoas mal informadas, com capacidade de ações inconsequentes.

Anônimo disse...

Cuidado com eixegese meu filho, para não cair na heresia.