20 de novembro de 2014

Carta aberta



Acima de tudo o amor!” (1 Coríntios 13,13)

Sonho é como semente, que precisa encontrar a terra e ser enterrado para ter condições de realmente se desenvolver. Algumas sementes se adaptam facilmente a qualquer solo. Outras, precisam de elementos específicos ou cuidados adequados. Um tipo não é melhor que o outro, apenas diferente. Resistente ou frágil, cada semente carrega em si a força da vida que lhe torna capaz, ao seu modo, de romper-se para explorar o solo onde está enterrada e dele sustentar-se. Sementes e pessoas têm suas semelhanças, mas não são a mesma coisa. O “tipo de pessoa” não permite saber, com certeza, qual o fruto possível, pois além do que se vê, existe o mistério divino.
Já se passaram mais de doze anos desde aquele dia em que decidi ingressar na vida religiosa, através da formação seminarística. Aliás, “seminarista” vem da palavra semente... Junto com a decisão, um sonho.
A vida vai abrindo estradas para nossos passos, mas se não caminhamos, o caminho por si não é capaz de nos levar ao destino. Mesmo com coragem de caminhar e toda a beleza que se revela pela estrada, também pedras, buracos, mau tempo, dificuldades, trilhas perigosas, assaltantes e desvios inevitavelmente vão aparecendo. Vai ser preciso descansar em alguma pousada ou, se ter a sorte de encontrar boas pessoas pra chamar de amigos, pode ser que se façam paradas mais longas em alguns abrigos.
E o semeador saiu para semear...” (Mateus 13, 3-9). Jesus uniu caminho e semente para falar da Palavra, a mesma Palavra que me seduziu desde criança e me provocou a assumi-la como condução para meu sonho. Jesus se identificou como “caminho”. Eu assumi ser cristão, e como seguidor, devo identificar o caminho que existe em mim também e onde estão caindo as sementes, os sonhos que formam o dom da minha vida.
Não se caminha sozinho. Pessoas o tempo todo cruzaram o meu caminho e muitas vezes interferiram na minha direção. Muitas são as pessoas que me trouxeram água quando o calor estava sufocante, me deram comida quando a fome me consumia, me ofereceram roupa para aguentar os dias frios e sombrios. Muitas pessoas ocuparam meu tempo com suas histórias, ou perderam seu tempo escutando as minhas. Muitas somente caminharam ao meu lado, até mesmo em silêncio. Outras espalharam sementes novas, de espécies que eu nem conhecia, que aos poucos foram crescendo e dando novas cores e cheiros no meu caminho. Já encontrei pessoas que ficaram pouco tempo comigo, outras que seguem de mãos dadas comigo há muito tempo. Já precisei parar de caminhar, porque a forte chuva e o vento atrapalhavam meus passos. Diante do perigo, algumas vezes foi preciso esperar.
O caminho parece não ter fim e muitas foram as vezes em que me deparei com encruzilhadas. Exigiram de mim um posicionamento, uma escolha, pois não se pode caminhar por duas estradas opostas ao mesmo tempo. Estou agora diante de mais uma dessas encruzilhadas. O caminho percorrido nos últimos anos, marcado por paisagens deslumbrantes e momentos importantes e felizes, que contribuíram imensamente para meu crescimento humano, afetivo, intelectual e cultural, agora me exige um posicionamento.
Junto a tantas alegrias e conquistas, algumas situações plantaram dentro de mim muitas angústias e até solidão. O acesso ao conhecimento da Teologia me possibilita olhar para minha fé de forma mais madura e convicta, reconhecendo que, para mim, muitas realidades da Igreja e sua hierarquia tomam direções contrárias ao que acredito e sonho quando exercem um poder centralizador.
Com a intenção verdadeira de aprofundar sentimentos e convicções, não exitei em trilhar o caminho da verdade e honestamente não escondi minhas limitações e contradições. A solidão foi presença constante, e reconheço meu movimento para isso em muitos momentos. Incoerências e desencontros marcaram também esse período mais atual. A distância da família e dos amigos, os conflitos internos cada vez mais consistentes, turbulosamente misturados por uma estrutura formativa massiva e às vezes omissa, que tem uma tendência a infantilizar e desresponsabilizar quando prefere, por comodidade, exigir o cumprimento de preceitos e a vivência de um comunitarismo, ao invés de gerar real comprometimento, foram se tornando um peso opressor e despersonalizante para mim, manchando minha vontade de perseverar.
Sou de uma geração que faz parte dos desafios da atualidade, com pais separados, parentes em diversas religiões e as cobranças do secularismo. O modelo atual formativo ainda não abrange com coragem essas realidades e faz exigências que não respondem a essa nova condição social, diferente dos moldes rurais e conservadores que formavam a Igreja. As particularidades de cada um se diluem em meio à tendência de um “apadronizamento”.
Embora o discurso não seja assim, na prática o que percebo é a tentativa de “formatar” todos num molde padronizado. “Ser comunitário” é a desculpa sempre usada para esconder uma formatação exigida. Não posso concordar com esse jeito de construir vocações nem ser conivente com um modelo que não dá resposta ao mundo de hoje, pois tende a provocar um isolamento da realidade e afastar das situações concretas da vida numa estrutura que protege e separa do “mundo lá de fora”. Não tenho motivações para me arriscar a isso. Não estou simplesmente condenando o modelo adotado, pois acredito na fraternidade solidária e na partilha dos bens, mas confirmando que não posso abraçar este “estilo religioso” da forma como se apresenta, diante do que sou e acredito.
As pessoas, os leigos de forma geral, ainda estão à margem de muitos processos da Igreja. A vida religiosa preserva e prioriza o comunitário, mas me parece defender isso de forma fechada em si mesma. Sob minha leitura, sinto que, em nome da instituição, ainda não se permite uma plena participação de todos. Quando ingressei na Congregação, o ideal do fundador de “ir ao povo” fez brilhar meu olhar de esperança, mas sempre que “fui ao povo” em contrapartida vinha um pedido para “ir menos”. Como concordar com o que contraria aquilo que sempre me fez dehoniano?
Diante deste quadro, assumo também minhas faltas no processo. Decisões e escolhas erradas foram assumidas por mim, mesmo que não as tenha tomado sozinho ou sem consultar opiniões de superiores. Porém, os resultados não foram compartilhados, ficando a responsabilidade dos erros apenas sobre mim. Não quero diminuir minha responsabilidade e as consequências, mas declaro a tristeza de sentir essa solidão no caminhar, num processo que não contruí sozinho, mas que somente a mim foram impostos os resultados. Se eu estiver equivocado, então que Deus me ajude a discernir e, interiormente, reconhecer que preciso mudar meu pensar.
Por esses motivos, e para não alimentar sentimentos negativos contra a Igreja e os dehonianos, que tanto reconheço como importantes na minha formação, nem com pessoas, que são responsáveis pelo que sou, então decidi deixar a vida religiosa. Comunico que não sou mais membro religioso desta instituição a que, certamente, sou sempre grato por todas as oportunidades e benefícios que me ofereceu, pois mesmo as situações negativas me servem como verdadeiro e rico aprendizado para uma vida mais plena e feliz.
Aos dehonianos minha gratidão e reconhecimento. São muitos os dehonianos que expressam com seu testemunho uma busca sincera pela vivência do carisma. Agradeço profundamente também aos tantos amigos e amigas formados em torno da fé, na certeza de que construíram em mim um pouco mais da imagem de Deus. Reforço o quanto o carisma dehoniano marca meu existir. A identificação com o projeto originário não deixará de estar presente na minha vida. Serei sempre dehoniano no coração, ouvindo os apelos deste carisma na hora de responder às exigências do meu existir. Seguirei em oração para que o carisma seja reencontrado e reassumido.
Não vou abandonar minha fé, nem a Igreja. Mas diante de questionamentos e inquietações, não posso assumir o papel de “representante” nem ser parte da hierarquia constituída e defendida como “bem divino”. É meu posicionamento, que espero não desmotivar quem acredita e aceita a hierarquia e afins, mas quero provocar a reflexão. Certamente, alguns não concordam comigo e têm o direito de pensar diferente. Busco pela vivência religiosa na sua essência e perceber privilégios e regalias, por vezes ainda defendidos por uma ala da hierarquia que sente saudades dos “tempos de trono”, me provoca a não fazer parte desse modo. Prefiro participar mais livremente e coerentemente com meu coração. Não me sinto suficientemente convicto a ponto de transmitir a totalidade de uma fé que não totalmente faz eco em mim. Para não me sentir mentiroso ou ir contrário à doutrina, prefiro não ser um porta-voz na hierarquia, mas uma voz que clama no mundo e pelo mundo.
Quero deixar evidente que os questionamentos são provocados por realidades do meu interior e não pretendo generalizar como verdades para todos. Fique claro que não sou contra a autoridade. Seria idiotice minha o ser, pois certamente é necessária em todos os sistemas sociais. Minha opinião não refere-se à sua constituição natural, mas nos modos que são exercidas e no poder concedido para garantir coisas que, sob minha opinião, não são necessárias para uma Igreja que procura pela fraternidade e pela justa solidariedade. Seguirei respeitando a quem de direito exerce seu ministério, mas prefiro viver de outro modo por acreditar ser possível um exercício de poder mais participativo e descentralizado.
Sei que esta carta não explica toda minha motivação, nem tenho essa pretensão, pois minha decisão é embasada em questões profundas e muito pessoais. Para mim, o modelo atual da congregação não responde suficientemente aos meus sonhos. Esses anos todos abriram meu coração e minha alma para buscas também em outros lugares e situações. Provocado para isso, prefiro responder a esses anseios fora do meio religioso institucionalizado. Não quero ser alguém que “mantém estruturas”, mas ser um agente livre para atualizar o amor de Deus nas novas realidades que o mundo impõem.
Escrevo para expressar um pouco do que sinto e acredito. São com os pilares da verdade, da solidariedade, da justiça e da diversidade que construo minha história. Acredito que cada pessoa é foco do amor divino segundo sua própria história e capacidades. Acredito que Deus não espera mudanças ou transformações nossas. Mudanças e transformações são movimentos nossos, em resposta à vida e seus ensinamentos, em resposta ao amor infinito de Deus. Deus ama. Simplesmente ama, e nos convida a aprender com seu amor. Fiz a experiência de não ser aceito como sou. Não posso seguir mutilando meu ser em troca de aceitação.
Tenho esperanças numa Igreja verdadeiramente de Cristo, que rompeu com aspectos do sistema religioso de seu tempo, hoje novamente incluídos por muitos por conveniência e conforto. A estrutura eu condeno com base nas minhas pessoais convicções e essa certeza me garante que, para muitas pessoas, a estrutura não causa qualquer inconveniente. Por isso, a diversidade é importante e necessária, pois garante que as mais diversas expressões de vida sejam contempladas e reconhecidas. Sem dúvidas, são muitos aqueles que buscam e vivem o cristianismo na sua essência e minha decisão é para preservar em mim mesmo essa convicção. Eu poderia continuar para fazer diferente, mas escolho sair para provocar reflexão.
Minha avó, que tanto reza por minha vocação, me provocou lembrando que “quem põe a mão no arado, não pode olhar para trás”. Justamente por não querer “abandonar o arado” é que preciso seguir adiante, respondendo ao amor de Deus que me chama sempre. Estava me sentindo sufocado, e “sem ar” não poderia continuar no “trabalho do arado”.
Sigo meu caminho. A semente do meu sonho já fincou raízes na minha alma. Sei que é um sonho plantado pelo próprio Deus em meu coração. Estou lutando para tornar esse sonho expressão do meu viver. Com essa certeza avanço em frente. Embora não mais no caminho iniciado há tantos anos, sigo escolhendo um dos caminhos oferecidos pela encruzilhada da vida que está diante de mim, mas sem mudar a finalidade do caminhar. Sigo em prece, unido ao amor que me criou. Seja o que for que farei, o farei integrado ao que acredito, ao seguimento do Coração de Jesus e na busca pela vivência concreta do amor.

Fraternamente,
Giorgio Sinestri
novembro 2014

www.educareforma.com.br/conteudo/carta-aberta

Um comentário:

Diego disse...

Giorgio,



Li seu texto e gostei bastante. Acho que argumentou bem e sem expor seus confrades. Não posso julgar se a escolha feita era realmente a melhor. Isso cabe somente a você. Agora… é claro que fico triste, até porque será mais difícil vê-lo, meu amigo.



Mas queria deixar aqui uma breve mensagem: assim como seu caminho foi marcado pelo de muitas pessoas, você também foi importante para muitos. Eu incluso.



Não é mais possível pra mim dizer como seria o Diego sem a experiência da Juventude Dehoniana. Participei dela por toda a vida adulta e me tornei alguém melhor (embora muito imperfeito ainda) graças aos irmãos com quem tive o prazer de trabalhar junto. Lá conheci Samira, em breve minha noiva e depois esposa. Também conheci pessoas que quero ter como amigas para sempre. E também eu fui importante para algumas poucas pessoas nas comunidades em que a MDJ esteve presente nestes últimos 8 anos. Aliás, mesmo se fosse só uma neste período todo, já teria valido a pena.



O que preciso lhe dizer é que sua contribuição continuará viva e que gente como você me fazem acreditar nos projetos em que nos engajamos. Sua grande virtude, talvez também muito próxima de um vício, é o do protagonismo. Você não tem muitos pudores em dar o primeiro passo. Precisamos hoje de dehonianos, consagrados ou não, que tenham a coragem de dar primeiros passos e a fibra do segundo, do terceiro etc.



Não sei o que Deus me reserva como missão, quais pessoas ele vai me colocar à frente e dos lados, mas tenho certeza de que gente como você me impulsiona para seguir adiante.



O mesmo vale para você. Sabe que precisa apenas nos chamar e teremos imenso prazer em ajudar.